A casa da vovó Beth
Podia ser em qualquer dia da semana, mas sempre sempre no finalzinho da tarde, eu costumava entrar na casa da minha avó, mas naquele dia eu estava diferente, pois eu tinha que tomar uma decisão muito importante que mudaria a minha vida.
A casa da minha avô era grande, tinha uma sala enorme, três quartos e um terreno que abraçava a construção antiga. Aquele lugar significava muito para mim era como se tudo começasse ali. Primeiro foi minha tia Zeneida, irmã mais velha do meu pai, que por motivos de não querer sair de perto da mãe, casou e fez seu puxado integrando os dois quartos da direita e tempo depois foi minha outra tia Flor, irmã mais nova de meu pai, ela era muito querida e meu pai foi dando logo um jeito, pois quem casa quer casa, de fazer um o ninho de amor para ela e seu marido, depois do casamento, por todo terreno à esquerda da casa. Por fim foi a vez de Papai, que construiu nosso lar em cima da casa de Vovó, fazendo uma parede, dividindo a sala. A casa dela é como se fosse a base de nossas vidas e de nossos lares, tudo tinha raiz naquele lugar.
Pensar em ir embora me trazia muita insegurança, pois ali naquela casa, parte de tantas outras, era onde eu me sentia mais seguro e feliz. A casa de Vovó tinha muita história tudo alí contava um pouco da minha vida. A casa era escura a pouca luz que entrava não vencia o corredor, o chão de barro batido, logo foi substituído por uma camada de cimento, mas continuava úmido, o cheiro de mofo não irritava meu olfato; causava um pequeno e gostoso espirro. Como é bom o gostoso o aconchego da minha vozinha que abraçado à ela toda família vive.
Estudar fora sempre foi meu sonho e parece que agora só dependia de mim a decisão de partir e seguir a vida longe da daqueles que me fizeram o que eu sou hoje. Eu olhava para aquele lugar como quem procura resposta, precisava me decidi. Havia um pote gigantesco que mantinha a água fresca e fria, também servia de encosto para sapatos grandes e roliços. A bateria velha e enferrujada sustentava panelas pretas de tisna e amassadas na borda. O armário de guardar louças, velho, surrado, guardava todo tipo de coisa, papel, mantimento, álcool, pacotes de vela e o diabo a quatro era uns dos meus lugares preferidos para ir a busca de biscoitos. O engraçado é que nunca perdia aquele cheirinho de balcão velho de bodega. O tamborete, que estava no canto da sala servia de altar com terços em pendurados e santos milagreiros de toda entidade, a vovó nos colocava de joelho sempre lá pra rezar pela manhã e antes de dormir. Quando a avó tinha algum problema recorria à eles e os milagres surgiam. Na cozinha o fogão à lenha deixava o canto da parede preto. Mas era ele que fazia as nossas refeições todos os dias. Embebia a farofa feita de farinha d’agua com caldo de galinha em uma fumaça gostosa, que deixava o gosto em tudo, no café, no macarrão, no próprio gosto. O banheiro que agora fazia parte da arquitetura, tinha uma cortina azul, muito florida, como porta. As vezes o cheiro era tão forte que fazia escorrer lágrimas nos olhos. De volta ao quarto, redes penduradas pareciam gotas petrificadas ornamentando o pobre cenário. Baratas, haviam muitas baratas de vez em quando uma sentava sobre minha cabeça, eu desviava estrategicamente girando como um gato, isso deixava visita mais emocionante. Era nosso jeito de brincar. Hoje em dia, meu tio, irmão mais novo do meu pai mora sozinho na casa. Ele bebe muito, sempre sai e deixa a porta destrancada. Ainda bem que na casa da vovó nunca teve nada de valor. Eu não gosto de cemitério prefiro entrar lá na casa da vovó. Quando estou triste, zangado, feliz, não importa como sempre que tenho algo pra decidir vou lá e decido tudo.
Jessica e Hallen
jESS
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