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sexta-feira, 24 de junho de 2016

    Resenha Crítica sobre o texto Diversidade Categorial no Cinema Africano (de Língua Portuguesa): Identidade e Sujeito



 CARELLI, Fabiana. Diversidade Categorial no Cinema Africano (de Língua Portuguesa): Identidade e Sujeito. Universidade de São Paulo

Este artigo trata do surgimento e de como se desenvolve o cinema africano nos países de língua portuguesa, a autora faz referência que se começou primeiramente a se falar da literatura africana no Brasil, concretamente na Universidade de São Paulo, deixou a entender que sobre esta última já se tem muito estudo realizado, mas que sobre o cinema quase nada ainda se tem. Fala ainda de muitos trabalhos de pesquisas sobre este assunto desenvolvidas por si, e por outros pesquisadores, com o intuito de mais se saber sobre tal assunto, pouco conhecido. Faz também referências à obras (filmes, longas e curtas metragens e musicais) produzidas e realizadas por atores africanos de língua portuguesa, com ou sem apoio de outros países africanos ou não africanos.
O texto foi escrito e dividido com três subtítulos, sendo eles: uma identidade coletiva?, sujeito(s)?, paradigmas “universais”, construções culturais, tem vinte e três páginas, a autora faz recurso de imagens devidamente legendadas destes filmes, e links de sites que direcionam o leitor a um maior aprofundamento da leitura, sendo que esses recursos facilitam a leitura, no final como se é de esperar encontramos a referência, os sites visitador e os filmes dos quais foram feitas referências no decorrer da leitura.
A autora fala que apesar do desconhecimento do cinema africano, depara-se ainda com o fato dessa produção ser consideradamente cara, fala também dos sequentes acontecimentos que ocorrem nesses territórios africanos (o fato de sofrem frequentemente com instabilidades naturais, sociais e políticas, como secas, guerras, golpes de Estado, etc.). Levanta ainda uma questão referente ao fato da distribuição sobre (quem vê/compra filmes produzidos em África?), há inúmeras questões conceituais envolvendo o estudo dessas produções.
Fala das inúmeras dificuldades de se estudar esse assunto e estabelecer categorias, pois segundo ela, a primeira delas, seria sem dúvida, a própria categorização desses filmes como “cinema africano de língua portuguesa”. Pois questiona que para começas teria que saber o que seria um “cinema africano”? Se haveria um nível de generalização assim possível e pertinente, a ponto de se considerar uma produção fílmica como possuidora de características de proporções continentais, e não especificamente nacionais? Além disso, de que modo falar de um cinema especificamente “africano”, a partir do momento em que nomeamos uma forma/linguagem (audiovisual) e uma técnica cinematográfica) criadas e desenvolvidas em contextos europeus e norte-americanos?
Segundo o artigo a apreciação de Ruy Duarte de Carvalho a respeito do que deveria ser o trabalho do chamado “cineasta africano”, de acordo com o manifesto de 1975, também aponta alguns traços que marcarão muitas das produções cinematográficas pan-africana no pós independências: a adesão à assim considerada “cultura popular”: a concepção do cinema como “análise social”; e a “inspiração na realidade”, numa tentativa de “descolonizar” o discurso fílmico contra uma imagem “eurocêntrica” de África e “dar voz” aos “subalternos” historicamente calados pela dominação colonial.

É ressaltado no texto o pioneirismo moçambicano no sentido de abrir caminhos para uma produção cinematográfica local nos países africanos recém independentes de Portugal. A criação Do Instituto Nacional Do Cinema desse país, em 1975, foi o primeiro ato cultural do governo recém empossado de Samora Machel, empreendido apenas cinco meses após a independência e, ainda segundo Manthia Diawara, demonstrava que, entre as prioridades do novo regime, estavam a “descolonização da distribuição fílmica”, a produção de filmes nacionais e sua distribuição dentro e fora de suas fronteiras.
É mostrado explicado de forma clara no texto que nem tudo no chamado no “cinema africano de língua portuguesa” é, justamente, língua portuguesa. Pois existe nesse países, para além dos falares regionais e nacionais (português falado em Angola ou em Moçambique, por exemplo, com suas características e mesclas locais), alguns cineastas, como o guineense Flora Gomes, vêm escolhendo propositalmente veicular seus filmes em língua crioula que demonstra que nem mesmo o critério da língua consegue se constituir enquanto categoria totalmente pertinente na classificação e análise dos filmes de que foi tratado neste  artigo e que a escolha da língua é, nesses contextos, uma clara questão de escolha política e cultural.
Dos filmes abordados no artigo, o filme “o jardim do outro homem”, dirigido pelo moçambicano Sol de Carvalho e lançado em 2006, foi o terceiro longa-metragem em película de Moçambique e o primeiro após vinte anos de estagnação do mercado cinematográfico no país. Teve um orçamento estimado em 850.000 euros, bastante caro para um filme produzido em África, numa produção cuidada, financiada por Portugal, Moçambique e França. Com um argumento bastante simples, embora objetive constituir se enquanto um retrato pungente de importantes questões da sociedade moçambicana contemporânea. Neste filme a protagonista Sofia, estudante de Maputo que cursa seu último ano do Ensino Médio, é pega ensinando um colega o conteúdo no momento da prova de biologia, por esse motivo é assediada sexualmente pelo seu professor, constantemente, com a justificativa dele de esquecer o ocorrido, caso aluna vá para cama com ele. Enquanto isso, ela enfrenta problemas com o namorado e com a família.
Feito grandes considerações sobre as atividades artísticas destes países, a autora mostra que as dificuldades ou problemas considerados ou já ultrapassados no Brasil, lá em momento algum se configuraram como tal. É importante salientar que a iniciativa da autora em estudar, analisar entender e compreender o cinema africano, e as suas peculiaridades, vale ressaltar que as contribuições por elas trazidas são de grande apoio e relevância, mas do mesmo modo não se pode deixar passar em branco uma pequena, mas significante inadequação da autora, em atribuir a mesma data de independência a todos os países africanos de língua portuguesa, pois isso não corresponde na verdade, principalmente se falando da Guiné-Bissau considerada pioneira nesse processo de libertação.
O artigo é de estrema importância para os estudantes de letras, literaturas, jornalismo e áreas afins, e que se interessam pelo cinema, principalmente, cinema africano de língua portuguesa, assim sendo sugerimos a leitura deste artigo.
Fabiana Buitor Carelli possui Bacharelado em Letras - Português pela Universidade de São Paulo (1993), Licenciatura em Letras - Português pela Universidade de São Paulo (1996), Mestrado em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela Universidade de São Paulo (1997), Doutorado em Letras (Teoria Literária e Literatura Comparada) pela Universidade de São Paulo (2003), Pós-Doutoramento pela University of Minnesota (2010) e graduação em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas - SP (1989). Atualmente é Professora Doutora da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, atuando principalmente nos seguintes temas: Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Literaturas Brasileira e Portuguesa, com enfoque nas relações entre cultura e política, literatura e oralidade, literatura e cinema.
Sou Jessica Bandeira, estudante do sétimo trimestre do curso de licenciatura em Letras-Português do IHL – Instituto de Humanidades e Letras, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – UNILAB. 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

                       Resumo do capitulo 3 da obra compreendendo a leitura de Frank Smith


SMITH, FRANK. Compreendendo a leitura: uma análise psicolinguística da leitura e do apreender a ler / Frank Smith; trad. Daise Batista. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

            É importante salientar, ainda no início, que este capitulo de livro aborda a questão da Informação e Experiência, o autor começa falando que a informação reduz a incerteza. Quando essa incerteza é reduzida o leitor ou observador, ou ouvinte é levado a tomar uma decisão. A informação pode ser medida, mas a compreensão não, ela não possui dimensão ou peso, ela não é oposto a incerteza, mas sim confusão. A compreensão não significa que toda a incerteza foi eliminada.
            No que diz respeito a erros e ruídos, Smith diz que, a compreensão não vem com uma garantia incondicional. A maneira como entendemos algo agora pode provar ser inapropriada mais tarde. O que pode ser compreensível para um, pode não ser para outro. O que é informação é informação para você, pode não ser para mim. Ele diz ainda que ruído é um termo técnico para um sinal ou uma mensagem que não transmite informação, não pode ser facilmente ignorado, não é uma ausência de informação, mas ao contrário, uma distração que pode aumentar a incerteza.
            O Autor diz que com relação a relatividade da informação e da compreensão, o que é chamado de informação nem sempre pode ser medido. Os fatos são chamados de informação, mas a qualidade de informação dos fatos depende do conhecimento anterior da pessoa que a recebe. Por outro lado, a informação que somente serve para confundir a mente é, na verdade, ruído. A informação existe somente quando reduz a incerteza, que é relativamente ao conhecimento e finalidade do indivíduo que a recebe. E a compreensão também depende daquilo que os indivíduos já sabem e necessitam ou desejam saber.
            Este capitulo nos informa que a redundância existe sempre que a mesma informação está disponível em mais de uma fonte, quando as mesmas alternativas podem ser eliminadas em mais de um modo. Não existe qualquer utilidade da redundância no texto se não reflete algo que o leitor já sabe, quer envolvendo a estrutura visual, ortográfica, sintática ou semântica da linguagem escrita. A redundância representa a informação que você não precisa, uma vez que já a possui.

            Quanto a limite de utilidade da informação, o texto nos mostra que: “quanto mais lutamos para evitar o erro, menores são as probabilidades de estarmos certos. Sempre temos uma opção para o quanto estaremos errados.”  Nesse contexto entra a noção de critérios, sendo a quantidade de informação de que os indivíduos necessitam antes de chegarem a uma decisão. Quando mais frequentemente você deseja estar certo, mais você deve tolerar o fato de estar errado. O autor termina o capitulo falando das duas razões fundamentais para a leitura. Fala também da mal utilização da palavra “informação”.
Relação entre conceitos : língua, linguagem, linguística, sociedade, cultura e pensamento.

A língua é um fenômeno social, assim sendo, ela está inserida numa sociedade, essa sociedade tem uma cultura, que por sua vez tem um jeito diferenciado de pensar, ou seja, seu pensamento é particular distinto das outras culturas, que expressa esse pensamento através de uma linguagem especifica, com seus mais variados desafios linguísticos e culturais e sociais.
 Este fenômeno social permite o homem que está inserido numa sociedade aprender a falar, pois sabemos que este, quando nasce está programado para falar, mas o acionamento desse potencial, inscrito no seu código genético, não se manifesta numa situação de isolamento, mas se desenvolve espontaneamente numa comunidade de falantes. Essa aptidão para a linguagem é um traço genético, mas a língua (materna) só se adquire quando o indivíduo está inserido numa comunidade ou sociedade. Notamos que nos casos das crianças selvagens (que cresceram sem contato humano): todas apresentam um atrofiamento da aptidão da linguagem. As condições sociais influem no modo de falar dos indivíduos, gerando certas variações na maneira de empregar uma mesma linguagem.
A língua é uma marca de identidade de um povo, e a fala é a afirmação desse povo, com estas o povo exerce a sua cidadania, opinião e ideias, repassam e transmitem o seu pensamento. William Labov atribuir, em sua perspectiva, valores sociais às regras linguísticas, perfazendo uma variação de determinado aspecto da língua, mostrou que os indivíduos aprendem sua função social e adquirem sua identidade cultural através desta. Falou ainda que ao nascer, o indivíduo é inserido num contexto socioeconômico cultural pré-existente e, à medida que cresce, participa de um processo de socialização que o transforma num falante de uma determinada variedade da língua, sob influência do meio social em que vive.
            Durante a fala do indivíduo, sua estrutura social é reforçada, formando, assim, a identidade cultural peculiar do indivíduo, visto que seu modo de falar é identificado com a maneira de viver do grupo social e da localidade onde mora. Nesse contexto a linguística entra com as suas mais particulares formas de estudar a língua e a sua variação de acordo com a sociedade e cultura onde esta está inserida.
Labov reforça isso quando diz que durante qualquer estudo de uma comunidade linguística, podemos constatar efetivamente a existência de uma diversidade ou de uma variação, de modo que a característica desta comunidade seja sua peculiaridade na forma de falar, chamada pela Sociolinguística de variedades linguísticas.
“Ela [a língua] é mesmo por excelência o índice das mudanças que se operam na sociedade e nesta expressão privilegiada da sociedade que se chama a cultura.” Esta frase entre aspas faz parte de “Estrutura da língua e estrutura da sociedade”, trabalho em que Émile Benveniste (1974) discute, fundamentalmente, questões relacionadas ao estudo dessas grandes entidades: língua e sociedade. Impossível se torna separar o termos: língua, linguagem, cultura, sociedade, pensamento e linguística, pois ambos os termos estão interligados na sua essência. Não se pode falar de um sem que outro apareça para dar a sua contribuição.

Mas podemos concluir que a linguística consegue elencar esses termos num só contexto, pois entendemos que os membros de uma comunidade da fala podem possuir um repertório linguístico que está propício à variação, dependendo do nível escolar em que se encontram, assim sendo o pensamento desse povo estará expresso, no seu modo de falar, agir e de se comportar, carregados de sua cultura, linguagem e conceitos sociais.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Azelú e eu

Um dá són uê lancá[1]

Algumas frases me definem, outras nem tanto. Poderia dizer que sem mim nada podeis fazer. E é verdade, permito que muita coisa venha a existência. A minha amiga Azelú é uma delas. Vivo na mata escura, mas não sou solitário, posso sentir o vento passando por entre os cabelos lisos da minha mãe, e lá do alto onde fico tomo nota de tudo que acontece, broto das entranhas frescas da minha mãe, tenho muitos irmãos, e muitos descendem de mim. Tenho muitos olhos e eles me permitem contemplar tudo.
Mas hoje, particularmente hoje, não vou contar a minha história, não vou mais ofuscar o brilho do outro. Vou contar a história da Azelú, da menina amarelo-esverdeada, da minha mais que querida amiga, dos nossos caminhos inseparáveis, da travessia que os meus diferentes tons de vermelho fazem ao escorrem feito sangue nas veias dessa menina-mulher.
Lembrei-me das nossas conversas e transformações em altas temperaturas, dos momentos passados juntos, dela me dizendo que sem mim não existiria, lembro-me também da minha mãe, umas das mulheres mais belas do mundo. Balançando o seu cabelo, e que cabelo, longos e lisos, lembro-me de tudo, como se fosse hoje.
Lembro-me que Azelú e eu andávamos pelas panelas de barro, nas nossas mais diversas fusões com ervas medicinais, da fumaça cheirando a ossami e pão de pimenta, e da curiosidade incontrolável dos vizinhos em nos saborear, nossa exagerei, na verdade de nos contemplar. Lembro-me da aversão da Azelú ao alho, nunca entendi o porquê.
Quando Azelú ia ser preparada eu ficava de vigia, observando a fruta-pão sendo cortada, a couve, o maquêquê, as berinjelas, o quiabo, e mais pensadas e arquitetadas folhas medicinais, eu era o último a ser colocado, na verdade quase isso, e quando eu era acrescentando deixavam a tampa da panela aberta, diziam que é para não cheirar a azeite.
Depois de muito fogo, e de muito esperar, vinha o peixe fumado. Hum! Como eu gostava desse cheiro, cheiro ao fumo, à folha de bananeira, à folha de mosquito, nossa cheirava a tudo, e as galinhas tentando roubar ou fisgar migalhas de peixe, ora badejo, ora atum, e nas mais frequentes vezes o voador panhá. Hum! Tempos bons.
Demorava muito para Azelú ficar pronta, acho que é por ela ser muito linda, as crianças ficavam impacientes por esperar. Algumas para se entreterem assavam bananas na brasa, outros preferiam o caroço, mas faziam tudo para que o tempo passasse depressa.
Depois de horas, sim muitas horas, as vezes de manhã a tarde, tinha que ser perfeita, por isso demorava tanto, lá estava ela toda reluzente no prato acompanha das mais diversas bolinhas de angu. Em seus tons de vende e amarelo. Acho que o verde das folhas e o meu vermelho é que permitia a existências dessa cor tão linda, é por isso que eu a chamo de Azilú. Porque somos juntos e misturados, a mistura de azeite no Calulú.

By: Jessica Bandeira

[1] Advinha santomense que significa basicamente: caí meus olhos arrancaram. Que se usava para se referir ao adim, fruto que dá origem ao azeite da palma ou olho de dendê.