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quarta-feira, 15 de junho de 2016

Azelú e eu

Um dá són uê lancá[1]

Algumas frases me definem, outras nem tanto. Poderia dizer que sem mim nada podeis fazer. E é verdade, permito que muita coisa venha a existência. A minha amiga Azelú é uma delas. Vivo na mata escura, mas não sou solitário, posso sentir o vento passando por entre os cabelos lisos da minha mãe, e lá do alto onde fico tomo nota de tudo que acontece, broto das entranhas frescas da minha mãe, tenho muitos irmãos, e muitos descendem de mim. Tenho muitos olhos e eles me permitem contemplar tudo.
Mas hoje, particularmente hoje, não vou contar a minha história, não vou mais ofuscar o brilho do outro. Vou contar a história da Azelú, da menina amarelo-esverdeada, da minha mais que querida amiga, dos nossos caminhos inseparáveis, da travessia que os meus diferentes tons de vermelho fazem ao escorrem feito sangue nas veias dessa menina-mulher.
Lembrei-me das nossas conversas e transformações em altas temperaturas, dos momentos passados juntos, dela me dizendo que sem mim não existiria, lembro-me também da minha mãe, umas das mulheres mais belas do mundo. Balançando o seu cabelo, e que cabelo, longos e lisos, lembro-me de tudo, como se fosse hoje.
Lembro-me que Azelú e eu andávamos pelas panelas de barro, nas nossas mais diversas fusões com ervas medicinais, da fumaça cheirando a ossami e pão de pimenta, e da curiosidade incontrolável dos vizinhos em nos saborear, nossa exagerei, na verdade de nos contemplar. Lembro-me da aversão da Azelú ao alho, nunca entendi o porquê.
Quando Azelú ia ser preparada eu ficava de vigia, observando a fruta-pão sendo cortada, a couve, o maquêquê, as berinjelas, o quiabo, e mais pensadas e arquitetadas folhas medicinais, eu era o último a ser colocado, na verdade quase isso, e quando eu era acrescentando deixavam a tampa da panela aberta, diziam que é para não cheirar a azeite.
Depois de muito fogo, e de muito esperar, vinha o peixe fumado. Hum! Como eu gostava desse cheiro, cheiro ao fumo, à folha de bananeira, à folha de mosquito, nossa cheirava a tudo, e as galinhas tentando roubar ou fisgar migalhas de peixe, ora badejo, ora atum, e nas mais frequentes vezes o voador panhá. Hum! Tempos bons.
Demorava muito para Azelú ficar pronta, acho que é por ela ser muito linda, as crianças ficavam impacientes por esperar. Algumas para se entreterem assavam bananas na brasa, outros preferiam o caroço, mas faziam tudo para que o tempo passasse depressa.
Depois de horas, sim muitas horas, as vezes de manhã a tarde, tinha que ser perfeita, por isso demorava tanto, lá estava ela toda reluzente no prato acompanha das mais diversas bolinhas de angu. Em seus tons de vende e amarelo. Acho que o verde das folhas e o meu vermelho é que permitia a existências dessa cor tão linda, é por isso que eu a chamo de Azilú. Porque somos juntos e misturados, a mistura de azeite no Calulú.

By: Jessica Bandeira

[1] Advinha santomense que significa basicamente: caí meus olhos arrancaram. Que se usava para se referir ao adim, fruto que dá origem ao azeite da palma ou olho de dendê. 

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