Azelú e eu
Um
dá són uê lancá[1]
Algumas
frases me definem, outras nem tanto. Poderia dizer que sem mim nada podeis
fazer. E é verdade, permito que muita coisa venha a existência. A minha amiga
Azelú é uma delas. Vivo na mata escura, mas não sou solitário, posso sentir o
vento passando por entre os cabelos lisos da minha mãe, e lá do alto onde fico
tomo nota de tudo que acontece, broto das entranhas frescas da minha mãe, tenho
muitos irmãos, e muitos descendem de mim. Tenho muitos olhos e eles me permitem
contemplar tudo.
Mas
hoje, particularmente hoje, não vou contar a minha história, não vou mais
ofuscar o brilho do outro. Vou contar a história da Azelú, da menina
amarelo-esverdeada, da minha mais que querida amiga, dos nossos caminhos
inseparáveis, da travessia que os meus diferentes tons de vermelho fazem ao
escorrem feito sangue nas veias dessa menina-mulher.
Lembrei-me
das nossas conversas e transformações em altas temperaturas, dos momentos
passados juntos, dela me dizendo que sem mim não existiria, lembro-me também da
minha mãe, umas das mulheres mais belas do mundo. Balançando o seu cabelo, e
que cabelo, longos e lisos, lembro-me de tudo, como se fosse hoje.
Lembro-me
que Azelú e eu andávamos pelas panelas de barro, nas nossas mais diversas
fusões com ervas medicinais, da fumaça cheirando a ossami e pão de pimenta, e
da curiosidade incontrolável dos vizinhos em nos saborear, nossa exagerei, na
verdade de nos contemplar. Lembro-me da aversão da Azelú ao alho, nunca entendi
o porquê.
Quando
Azelú ia ser preparada eu ficava de vigia, observando a fruta-pão sendo
cortada, a couve, o maquêquê, as berinjelas, o quiabo, e mais pensadas e
arquitetadas folhas medicinais, eu era o último a ser colocado, na verdade
quase isso, e quando eu era acrescentando deixavam a tampa da panela aberta,
diziam que é para não cheirar a azeite.
Depois
de muito fogo, e de muito esperar, vinha o peixe fumado. Hum! Como eu gostava
desse cheiro, cheiro ao fumo, à folha de bananeira, à folha de mosquito, nossa
cheirava a tudo, e as galinhas tentando roubar ou fisgar migalhas de peixe, ora
badejo, ora atum, e nas mais frequentes vezes o voador panhá. Hum! Tempos bons.
Demorava
muito para Azelú ficar pronta, acho que é por ela ser muito linda, as crianças
ficavam impacientes por esperar. Algumas para se entreterem assavam bananas na
brasa, outros preferiam o caroço, mas faziam tudo para que o tempo passasse
depressa.
Depois
de horas, sim muitas horas, as vezes de manhã a tarde, tinha que ser perfeita,
por isso demorava tanto, lá estava ela toda reluzente no prato acompanha das
mais diversas bolinhas de angu. Em seus tons de vende e amarelo. Acho que o
verde das folhas e o meu vermelho é que permitia a existências dessa cor tão
linda, é por isso que eu a chamo de Azilú. Porque somos juntos e misturados, a
mistura de azeite no Calulú.
By: Jessica Bandeira
[1]
Advinha santomense que significa basicamente: caí meus olhos arrancaram. Que se
usava para se referir ao adim, fruto que dá origem ao azeite da palma ou olho
de dendê.
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